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quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

VERBUM DOMINI II

AS PALAVRAS DIVINAS CRESCEM JUNTAMENTE COM QUEM AS LÊ.
(São Gregório Magno: Homiliae in Ezechielem I,VII,8: PL, 76, 843 D.)

1. HERMENÊUTICA DA SAGRADA ESCRITURA NA IGREJA

4. Os parágrafos iniciais que compõem esta parte da VD são construídos com alguns pares de expressões que chamam a atenção do leitor. Atenho-me a alguns deles que são importantes para esta exposição destacando os que são de cunho relacional e os que são contrapositivos. Para os primeiros, são indicados temas como vida espiritual e hermenêutica da Escritura; fé e razão; sentido literal e sentido espiritual. Para os seguintes, o Santo Padre faz um retrospecto histórico elencando algumas tendências problemáticas na abordagem do texto bíblico: racionalismo versus sentido espiritual separado da história (preocupação de Leão XIII, expressada na Providentíssimus Deus); exegese mística versus abordagem científica (preocupação de Pio XII, expressada na Divino Afflante Spiritu); exegese versus Teologia; exegese científica versus Lectio Divina. Os problemas advindos destas contraposições são enormes e tornam obscura e deturpada a leitura da Bíblia. Assim, “onde a exegese não é teologia, a escritura não pode ser a alma da teologia e, vice-versa, onde a teologia não é essencialmente interpretação da Escritura na Igreja, esta teologia já não tem fundamento” (VD, n°.35). Mas sobre estas considerações teremos uma mesa logo mais à noite. 

5. O exegeta italiano Massimo Grilli, hoje professor no Pontifício Instituto Bíblico de Roma, se perguntava (BDV 82/83) sobre a relação entre exegese científica e leitura pastoral da Bíblia:
é possível encontrar uma leitura do texto que não assassine a inteligência da pessoa, mas que seja também significativa para a existência cotidiana? É possível integrar a seriedade da investigação e do pensamento com a vitalidade e o calor de uma palavra que não volta a Deus sem ter realizado seus prodígios? Mais à frente, ele compara a justa relação entre exegese científica e leitura pastoral da Bíblia ao descobrimento de um rosto, citando o filósofo Lévinas.

6. A VD, n°.34 apresenta, então, algumas saídas inspiradas na própria Dei Verbum, n°.12: a) unidade da Escritura (exegese canônica); b) Tradição da Igreja; c) analogia da fé. 

7. Gostaria de estender algumas palavras sobre a unidade da Escritura. Em livro publicado em 1995, E. Zenger, renomado exegeta católico, alemão, falecido em 04 de Abril do ano passado aos 70 anos de idade, dedica uma longa introdução que tem como título A Sagrada Escritura de Judeus e Cristãos. Ao fim dela, ele comenta uma lista de Maneiras problemáticas de ler e compreender o Antigo Testamento no cristianismo. Uma delas é o modelo do contraste onde R. Bultmann havia chamado o Antigo Testamento de “livro do nosso fracasso”. Neste modelo, o Antigo Testamento tem uma função teológica de ser apenas o fundo de contraste da mensagem do Cristo (ZENGER, 2003, p.22). É aí que exegese e teologia são levadas a se comportarem como estranhas uma à outra (VD, n°.35). Para tanto, o Santo Padre se dedica a expor a relação entre Antigo e Novo Testamento afirmando que “a raiz do cristianismo encontra-se no Antigo Testamento e sempre se nutre desta raiz. Por isso a sã doutrina cristã sempre recusou qualquer forma emergente de marcionismo, que tende de diversos modos a contrapor entre si o Antigo e o Novo Testamento” (VD, n°.40). Me chamou muito a atenção que o Santo Padre tenha escrito, exatamente, doutrina cristã e não doutrina católica rechaçando qualquer possibilidade de altercação.

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