Na noite em que foi entregue, o Senhor Jesus tomou o pão e, depois de dar graças, partiu-o e disse: “Isto é o meu corpo, que é para vós; fazei isto em memória de mim.” Do mesmo modo, após a ceia, também tomou o cálice, dizendo: “Este é cálice é a nova aliança em meu sangue; todas as vezes que dele beberdes, fazei-o em memória de mim” (1Cor 11,23-25, segundo a Bíblia de Jerusalém).
Tocamos um ponto alto. Tocamos um momento solene. Tocamos um momento que nos emociona e convida a atitudes muito sérias. Naquela noite algo se deu. Algo tão importante que chega até nós. Uma grande e misteriosa teologia está escondida nestas poucas palavras e nestes gestos. Um mistério tão grande que não conseguimos fazer muitas idéias. Ao mesmo tempo um mistério que se aproxima de nós. Que quer se aproximar. E quanto mais se aproxima menos temos palavras e mais somos contemplativos [ou deveríamos ser].
A berākâ bíblica donde vem o correspondente grego eucaristia é muito mais que agradecimento, é também admiração, louvor, proclamação, narração, recordação, celebração e adoração. É um dar graças porque o Senhor quis se aproximar de nós como Deus aproximou do povo na escravidão do Egito. Dar graças porque a Páscoa deixou, então, de ter uma tonalidade figurativa e passou a ser uma realidade no nosso meio. Não se trata de mera recordação de algo muito distante e que quase não nos diz respeito. Trata-se, antes, de proclamar com o profundo compromisso de colocar na prática da vida esta suprema entrega do Senhor. Diz Rochetta:
“Recordar a ação de Deus é recordar sua presença no meio do povo. Não há como desligar-se do real, do cotidiano. É daí que nasce o re-memorar: recordação e memória. Com formas visíveis atualizamos o passado e assim entramos a participar da história da salvação. Disto decorre que não é magia e nem automatismo. Não é um tempo que desaparece no passado (este não é um pensamento bíblico), mas um tempo no plano de Deus: passado e futuro dão as mãos no memorial eucarístico presente”.
O mistério é grande, a beleza inefável: toŭto poieité eis tēn emēn anámnesin: isto fazei em meu memorial (Lc 22,19 e 1Cor 11,24-25).
Muitas vezes se percebe uma compreensão errônea de que acontece uma bênção sobre o pão. Não é essa a realidade no que se refere ao pão da eucaristia: não se trata de bendizer o pão, “mas bendizer a Deus por causa do pão” (BACIOCCHI). O pão partido é um sinal misterioso e belo da paixão do Senhor!
Um outro ponto merece reflexão: o aspecto indissociável do sacrifício da missa e o sacrifício da cruz. Unidos e inseparáveis: na noite em que foi entregue... Não raro isso não bem entendido, bem rezado, bem vivido. Muitas vezes não se compreende que
"a santa ceia não foi à parte em relação à cruz. Não foi uma situação de oblação enquanto a cruz realiza o aspecto imolativo. Isto torna o sacrifício de Cristo na cruz incompleto”. (SAYES, 281 citando DE LA TAILLE, M. Mysterium Fidei. Paris, 1931, 33-50.)
É por isso que “Esse memorial torna o Senhor presente e recorda diante do Pai o sacrifício único do Filho, que o atualiza no sacramento, na apresentação sacramental do seu sacrifício ao Pai” .
Para ler:
ANTONIO SAYES, J. La Presencia Real de Cristo en La Eucaristía. Madrid: BAC, 1976, 280.
BACIOCCHI, J. El Misterio Cristiano. La Eucaristía. Barcelona: Herder, 1968.
ROCCHETTA, Carlo. Os Sacramentos da Fé. São Paulo: Paulinas, 1991.